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  • Quando a libido some, nem sempre é sobre sexo

    Quando a libido some, nem sempre é sobre sexo

    Uma reflexão sobre cansaço, corpo e presença

    Às vezes, é o corpo exausto pedindo presença — não cobrança

    Existe um tipo de cansaço que não melhora com uma noite de sono.
    Ele não passa com férias, nem com força de vontade.


    É um cansaço que se instala devagar e vai mudando a forma como a gente habita o próprio corpo.

    Você segue funcionando.
    Cumpre o que precisa ser feito.
    Mas algo fica para trás.

    Não é tristeza declarada.
    Não é exatamente desânimo.
    É mais silencioso do que isso.

    É como se o corpo estivesse ali — mas você não estivesse inteira dentro dele.

    Muitas mulheres começam a perceber esse afastamento quando algo que antes fluía deixa de acontecer.


    Às vezes é a disposição.
    Às vezes é o prazer.
    Às vezes é o desejo.

    E quase sempre a primeira reação é procurar explicações rápidas.
    Idade.


    Relacionamento.
    Rotina.
    Hormônios.
    Qualquer coisa que ajude a resolver logo aquilo que passou a incomodar.

    Mas nem sempre a ausência de desejo aponta para um problema específico.


    Às vezes, ela é apenas um sinal.

    Um corpo exausto não se expande.
    Ele se preserva.

    Quando a energia está baixa, o corpo entra em modo de economia.
    Ele faz o necessário para manter a vida funcionando, mas corta o que não é essencial naquele momento.


    E o desejo, quase sempre, é um dos primeiros a ser silenciado.

    Não porque há algo errado com você.
    Mas porque o corpo entende que não é hora de se abrir — é hora de se proteger.

    Existe uma confusão comum entre desejo e estímulo.
    Como se o desejo pudesse ser provocado por insistência, técnicas ou ajustes externos.


    Mas o desejo verdadeiro costuma nascer quando o corpo se sente seguro, presente e habitado.

    E isso não se constrói na cobrança.
    Se constrói na escuta.

    Escutar o corpo não é abandonar responsabilidades nem romantizar o cansaço.


    É reconhecer que viver em estado constante de alerta cobra um preço.


    E que, em algum momento, o corpo começa a pedir outra forma de relação.

    Mais presença.
    Menos exigência.

    Talvez o que esteja faltando não seja vontade.
    Talvez seja vitalidade — não como conceito bonito, mas como experiência real de estar no próprio corpo.

    Vitalidade não é agitação.
    Não é produtividade.
    Não é aparência.

    É sentir que o corpo responde.
    Que há espaço interno.
    Que o movimento não é punição.
    Que o descanso não vem acompanhado de culpa.

    Quando essa vitalidade começa a ser reconstruída, muitas coisas voltam a se reorganizar sozinhas.
    Não por esforço.
    Mas porque o corpo deixa de estar em estado de sobrevivência.

    Talvez esse seja um convite mais profundo do que parece.
    Não para buscar soluções imediatas.
    Mas para observar com mais honestidade o tipo de vida que o seu corpo vem sustentando.

    Algumas ausências não pedem correção.
    Pedem atenção.

    E talvez seja por aí que tudo comece a fazer sentido novamente.

    O corpo fala o tempo todo.
    O que muda, com o tempo, é se estamos disponíveis para escutar.

    Nem sempre a resposta vem como solução imediata.
    Às vezes, vem como um convite para olhar mais fundo
    e reorganizar a forma como habitamos o próprio corpo.

    Quando essa conversa começa, outras perguntas surgem.
    E com elas, a possibilidade de construir um caminho mais vivo,
    mais presente, no ritmo que o corpo consegue sustentar.

    É nesse espaço — entre escuta e presença —
    que algo novo começa a se formar.

    Laecía